O recall no Brasil (1)
A convocação dos proprietários de veículos para troca de peças ou sistemas defeituosos (recall) não se faz apenas em conseqüência de
providências tomadas também no exterior, como aconteceu há dez dias
com os casos da Ford-Firestone e da Volvo.
De 1996 para cá, as montadoras de veículos instaladas no Brasil
convocaram os consumidores para recall em pelo menos 1,014 milhão de
veículos, o correspondente a 75,5% da produção de todo o ano de
1999.
Mesmo assim, trata-se de um volume por si só espantoso de
defeitos que, no entanto, ainda não dá a noção correta da falta de
cuidado com que o veículo é produzido no Brasil.
O recall somente acontece quando a segurança do veículo está sob
risco. Não é feito para trocar peças menos importantes, como bombas
de combustível, escapamentos ou sistema elétrico de acionamento dos
vidros. E este é um elemento adicional que ilustra a qualidade
insatisfatória dos veículos produzidos no Brasil, fato que vem sendo
reconhecido pelo presidente da Volkswagen, Herbert Demel.
"A maioria dos defeitos não é comunicada aos donos de veículos
no Brasil.
Quando é comunicada, a mensagem passada ao proprietário do
veículo em geral procura esconder a gravidade do problema", denuncia
Jaílton de Jesus Silva, que está instituindo a Associação Nacional
das Vítimas de Montadoras e Concessionárias Automobilísticas (Anvemca).
Ele sofreu quatro acidentes em conseqüência do funcionamento de
peças defeituosas em veículos novos e reclama de que "os comunicados
são veiculados apenas em jornais; dificilmente, pela televisão".
Baixo empenho
No ano passado, segundo noticiou o Jornal do Carro, em dezembro,
31% dos proprietários dos veículos defeituosos não atenderam ao
recall. Isso significa que continuam expostos a graves acidentes,
sem que nenhuma providência adicional venha sendo tomada para
evitá-los.
Jaílton Silva chama à atenção também para a baixa eficiência do
que denomina "recall branco". São comunicados feitos pela montadora
apenas para a concessionária, de que deve substituir peças ou
sistemas defeituosos de determinados lotes de veículos. Como esses
casos não envolvem riscos sérios de acidente, as concessionárias em
geral negam-se a realizar as trocas.
O professor de sociologia da USP e especialista do setor
automotivo, Glauco Arbix, observa que no Brasil a prática do recall
é recente e enfrenta sérias resistências das concessionárias que, em
geral, também não se sentem adequadamente remuneradas pela execução
dos serviços de troca. "Falta empenho do setor e maior fiscalização
na proteção do consumidor."
Arbix explica que, na maioria dos casos, os problemas são
provocados por falhas na montagem do veículo ou por defeitos na
composição química das peças. "O caso dos pneus
Bridgestone/Firestone, por exemplo, foi um problema na composição
química da borracha. Cada recall precisa de um estudo específico."
Ele afirma que é preciso enfrentar o problema diretamente na
linha de produção. Apesar do estouro do escândalo da Mitsubishi, que
por 20 anos escondeu dos consumidores os defeitos dos seus carros, a
qualidade dos veículos japoneses têm melhorado substancialmente
graças à incorporação às linhas de montagem de pessoal especializado
em manutenção. "Esse conhecimento ajuda muito no processo de
qualidade. O trabalhador fica mais atento à possibilidade de
ocorrência de defeitos e está preparado para corrigi-los ainda na
linha de montagem." |
|