JORNAL DA TARDE (26/08/2000)  


O recall no Brasil (1)

A convocação dos proprietários de veículos para troca de peças ou sistemas defeituosos (recall) não se faz apenas em conseqüência de providências tomadas também no exterior, como aconteceu há dez dias com os casos da Ford-Firestone e da Volvo.

De 1996 para cá, as montadoras de veículos instaladas no Brasil convocaram os consumidores para recall em pelo menos 1,014 milhão de veículos, o correspondente a 75,5% da produção de todo o ano de 1999.

Mesmo assim, trata-se de um volume por si só espantoso de defeitos que, no entanto, ainda não dá a noção correta da falta de cuidado com que o veículo é produzido no Brasil.

O recall somente acontece quando a segurança do veículo está sob risco. Não é feito para trocar peças menos importantes, como bombas de combustível, escapamentos ou sistema elétrico de acionamento dos vidros. E este é um elemento adicional que ilustra a qualidade insatisfatória dos veículos produzidos no Brasil, fato que vem sendo reconhecido pelo presidente da Volkswagen, Herbert Demel.

"A maioria dos defeitos não é comunicada aos donos de veículos no Brasil.

Quando é comunicada, a mensagem passada ao proprietário do veículo em geral procura esconder a gravidade do problema", denuncia Jaílton de Jesus Silva, que está instituindo a Associação Nacional das Vítimas de Montadoras e Concessionárias Automobilísticas (Anvemca). Ele sofreu quatro acidentes em conseqüência do funcionamento de peças defeituosas em veículos novos e reclama de que "os comunicados são veiculados apenas em jornais; dificilmente, pela televisão".


Baixo empenho

No ano passado, segundo noticiou o Jornal do Carro, em dezembro, 31% dos proprietários dos veículos defeituosos não atenderam ao recall. Isso significa que continuam expostos a graves acidentes, sem que nenhuma providência adicional venha sendo tomada para evitá-los.

Jaílton Silva chama à atenção também para a baixa eficiência do que denomina "recall branco". São comunicados feitos pela montadora apenas para a concessionária, de que deve substituir peças ou sistemas defeituosos de determinados lotes de veículos. Como esses casos não envolvem riscos sérios de acidente, as concessionárias em geral negam-se a realizar as trocas.

O professor de sociologia da USP e especialista do setor automotivo, Glauco Arbix, observa que no Brasil a prática do recall é recente e enfrenta sérias resistências das concessionárias que, em geral, também não se sentem adequadamente remuneradas pela execução dos serviços de troca. "Falta empenho do setor e maior fiscalização na proteção do consumidor."

Arbix explica que, na maioria dos casos, os problemas são provocados por falhas na montagem do veículo ou por defeitos na composição química das peças. "O caso dos pneus Bridgestone/Firestone, por exemplo, foi um problema na composição química da borracha. Cada recall precisa de um estudo específico."

Ele afirma que é preciso enfrentar o problema diretamente na linha de produção. Apesar do estouro do escândalo da Mitsubishi, que por 20 anos escondeu dos consumidores os defeitos dos seus carros, a qualidade dos veículos japoneses têm melhorado substancialmente graças à incorporação às linhas de montagem de pessoal especializado em manutenção. "Esse conhecimento ajuda muito no processo de qualidade. O trabalhador fica mais atento à possibilidade de ocorrência de defeitos e está preparado para corrigi-los ainda na linha de montagem."


 

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