JORNAL DA TARDE (26/08/2000)  


O recall no Brasil (2)

Na coluna de ontem ficou dito que: (1) Nos últimos quatro anos, foram feitos recalls (convocação dos proprietários de veículos para troca de peças ou sistemas defeituosos) em 1,014 milhão de veículos, um número preocupante, já que corresponde a 75,5% da produção de 1999.

(2) Um recall só é feito quando envolve graves questões de segurança.

Defeitos que não envolvem periculosidade raramente são sistematicamente reparados. Isso depõe contra a qualidade do veículo brasileiro.

(3) Cerca de 30% dos proprietários de veículos não atendem a recalls. Rodar nessas condições traz perigo de acidentes, sem que nem o setor nem as autoridades se empenhem a fundo para evitá-los.

Na segunda parte desta matéria, você tem a opinião das entidades de defesa do consumidor e, também, do setor.

Para tornar mais sério o anúncio de recall no País, a Fundação Procon criou a Comissão Permanente de Acidentes de Consumo, que fiscaliza não apenas o caso da indústria automobilística, mas de todos os setores industriais e de serviço cujos produtos tenham o potencial de prejudicar seriamente o consumidor. Por meio do site www.procon.sp.gov.br os proprietários de veículos poderão em breve obter informações sobre recalls.

Esse serviço também já é prestado pelo site www.estradas.com.br.

Vanessa Couto, técnica de proteção e Defesa do Consumidor do Procon, chama a atenção para a falta de empenho das montadoras na convocação de um recall.

"É preciso que se faça ampla divulgação, em rádio, televisão e jornal. O uso restrito a apenas uma mídia caracteriza infração do Código de Defesa do Consumidor", afirma.

Distância 

Vanessa diz que falta mais objetividade nos comunicados de recall das montadoras. "Isso não pode ser considerado apenas um simples comunicado. Tem de ser um alerta de que o produto pode prejudicar sua saúde ou tirar-lhe a vida."

Ela diz que está em estudo a imposição de multas às montadoras que não cumprirem as normas do Código. A mais discutida é a obrigatoriedade de que os programas de recall atendam a 100% dos clientes. "Não adianta a montadora nos apresentar um relatório, no qual conste que 60% dos proprietários responderam ao recall. Estatísticas não garantem o objetivo pelo qual são realizados nem a vida das pessoas." Mesmo assim, a fiscalização no Brasil precisa ser mais rigorosa. Roberto Freitas, diretor do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), ligado à Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, passou o recado, por meio de sua assessoria de imprensa, de que o DPDC vem acompanhando os processos de recall. Mas reconhece que não há um órgão específico para fiscalizar esses casos, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos. "Nunca vamos conseguir a adesão de 100%, mas podemos fazer com que a montadora prorrogue o recall até atingir um nível aceitável", diz Freitas.

O assunto é tão delicado que a Anfavea, que representa as montadoras, e a Fenabrave, que defende as concessionárias, preferem manter distância desse tema.

No entanto, das quatro montadoras questionadas por esta Coluna, apenas a Fiat decidiu pronunciar-se por meio de sua assessoria de imprensa. Ela discorda do Procon e afirma que utiliza todos os meios para alertar seus clientes para a possibilidade de defeitos nos produtos de sua marca. Diz ainda que tem feito muito mais do que o que vem sendo exigido pela legislação. Sobre a crítica quanto aos termos de convocação dos proprietários nos casos de recall, respodeu que não pretende fazer terrorismo na mídia. A Fiat está sendo processada por defeitos no Tipo, que chegaram a provocar incêndios.

Sem terrorismo 

O vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, José Edson Parro, dá seu apoio irrestrito às montadoras. Ex-funcionário da GM, o próprio Parro acompanhou os últimos grandes recalls da montadora no Brasil. "Não se pode provocar pânico. As montadoras vêm tendo uma atitude de respeito para com o consumidor."

Ele não concorda com Arbix sobre a eficiência da experiência japonesa de melhoria da qualidade dos veículos. Ele diz que não é levando técnicos em manutenção para a linha de montagem que se vai resolver o problema. "É raro ocorrer um defeito devido ao processo de montagem do veículo. O que mais acontece são defeitos de fabricação em componentes."

Wilson Gil Oliveira, diretor de pós-venda da Abrac, que representa as concessionárias GM, diz que muitos donos de veículos buscam a assistência técnica somente após receber a terceira carta de convocação. "O caso da S-10, por exemplo, 90% dos proprietários atenderam ao recall. Mas o nível de retorno é maior após a segunda carta."

Ele desconhece a prática do "recall branco" e explica que o custo de uma operação de recall não é nada confortável. "Gasto com estoque de peças, necessidade de mais técnicos devido ao grande volume, tudo isso gera um custo adicional."

De todo modo, fica difícil negar que muita coisa errada esteja acontecendo nos recalls sem que nem as montadoras nem as autoridades encarregadas da fiscalização estejam fazendo o suficiente para enfrentar adequadamente o problema.


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