O recall no Brasil (2)
Na coluna de ontem ficou dito que: (1) Nos últimos quatro anos, foram feitos recalls (convocação dos
proprietários de veículos para troca de peças ou sistemas defeituosos)
em 1,014 milhão de veículos, um número preocupante, já que corresponde a
75,5% da produção de 1999.
(2) Um recall só é feito quando envolve graves questões de segurança.
Defeitos que não envolvem periculosidade raramente são
sistematicamente reparados. Isso depõe contra a qualidade do veículo
brasileiro.
(3) Cerca de 30% dos proprietários de veículos não atendem a
recalls. Rodar nessas condições traz perigo de acidentes, sem que nem o
setor nem as autoridades se empenhem a fundo para evitá-los.
Na segunda parte desta matéria, você tem a opinião das entidades de
defesa do consumidor e, também, do setor.
Para tornar mais sério o anúncio de recall no País, a Fundação
Procon criou a Comissão Permanente de Acidentes de Consumo, que
fiscaliza não apenas o caso da indústria automobilística, mas de todos
os setores industriais e de serviço cujos produtos tenham o potencial de
prejudicar seriamente o consumidor. Por meio do site
www.procon.sp.gov.br os proprietários de veículos poderão em breve obter
informações sobre recalls.
Esse serviço também já é prestado pelo site
www.estradas.com.br.
Vanessa Couto, técnica de proteção e Defesa do Consumidor do Procon,
chama a atenção para a falta de empenho das montadoras na convocação de
um recall.
"É preciso que se faça ampla divulgação, em rádio, televisão e
jornal. O uso restrito a apenas uma mídia caracteriza infração do Código
de Defesa do Consumidor", afirma.
Distância
Vanessa diz que falta mais objetividade nos comunicados de recall
das montadoras. "Isso não pode ser considerado apenas um simples
comunicado. Tem de ser um alerta de que o produto pode prejudicar sua
saúde ou tirar-lhe a vida."
Ela diz que está em estudo a imposição de multas às montadoras que
não cumprirem as normas do Código. A mais discutida é a obrigatoriedade
de que os programas de recall atendam a 100% dos clientes. "Não adianta
a montadora nos apresentar um relatório, no qual conste que 60% dos
proprietários responderam ao recall. Estatísticas não garantem o
objetivo pelo qual são realizados nem a vida das pessoas." Mesmo assim, a fiscalização no Brasil precisa ser mais rigorosa.
Roberto Freitas, diretor do Departamento de Proteção e Defesa do
Consumidor (DPDC), ligado à Secretaria de Direito Econômico do
Ministério da Justiça, passou o recado, por meio de sua assessoria de
imprensa, de que o DPDC vem acompanhando os processos de recall. Mas
reconhece que não há um órgão específico para fiscalizar esses casos,
diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos. "Nunca vamos conseguir
a adesão de 100%, mas podemos fazer com que a montadora prorrogue o
recall até atingir um nível aceitável", diz Freitas.
O assunto é tão delicado que a Anfavea, que representa as montadoras, e a Fenabrave, que defende as concessionárias, preferem manter distância
desse tema.
No entanto, das quatro montadoras questionadas por esta Coluna,
apenas a Fiat decidiu pronunciar-se por meio de sua assessoria de
imprensa. Ela discorda do Procon e afirma que utiliza todos os meios
para alertar seus clientes para a possibilidade de defeitos nos produtos
de sua marca. Diz ainda que tem feito muito mais do que o que vem sendo
exigido pela legislação. Sobre a crítica quanto aos termos de convocação
dos proprietários nos casos de recall, respodeu que não pretende fazer
terrorismo na mídia. A Fiat está sendo processada por defeitos no Tipo,
que chegaram a provocar incêndios.
Sem terrorismo
O vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, José Edson Parro, dá seu apoio irrestrito às montadoras. Ex-funcionário
da GM, o próprio Parro acompanhou os últimos grandes recalls da
montadora no Brasil. "Não se pode provocar pânico. As montadoras vêm
tendo uma atitude de respeito para com o consumidor."
Ele não concorda com Arbix sobre a eficiência da experiência
japonesa de melhoria da qualidade dos veículos. Ele diz que não é
levando técnicos em manutenção para a linha de montagem que se vai
resolver o problema. "É raro ocorrer um defeito devido ao processo de
montagem do veículo. O que mais acontece são defeitos de fabricação em
componentes."
Wilson Gil Oliveira, diretor de pós-venda da Abrac, que representa
as concessionárias GM, diz que muitos donos de veículos buscam a
assistência técnica somente após receber a terceira carta de convocação.
"O caso da S-10, por exemplo, 90% dos proprietários atenderam ao recall.
Mas o nível de retorno é maior após a segunda carta."
Ele desconhece a prática do "recall branco" e explica que o custo de
uma operação de recall não é nada confortável. "Gasto com estoque de
peças, necessidade de mais técnicos devido ao grande volume, tudo isso
gera um custo adicional."
De todo modo, fica difícil negar que muita coisa errada esteja
acontecendo nos recalls sem que nem as montadoras nem as autoridades
encarregadas da fiscalização estejam fazendo o suficiente para enfrentar
adequadamente o problema.
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