FONTE: JORNAL O GLOBO - 07/04/2001


Garantido até a esquina

Marcelo Moura
Foto de André Mello

Peças não originais põem a perder a garantia Nem bem comprou o carro e já foi correndo a uma loja de acessórios jogar a garantia fora. Tida como uma das mais sólidas vantagens de se comprar um zero-quilômetro, a cobertura da montadora contra defeitos se esvai com uma facilidade maior do que se imagina. Pelas letras do manual do proprietário, tudo o que o consumidor fizer fora da rede autorizada, mesmo que seja uma banal instalação de rádio, encerra por completo a cobertura de fábrica.

— É claro que as regras não são tão rígidas — diz Arnie Tcheou, gerente de operações da Ford. — Não deixaremos de resolver um problema no vidro elétrico só porque o banco não é o de fábrica.

A decisão sobre o que deve ou não ser coberto pela garantia fica a cargo da concessionária. Esse julgamento passa por caminhos imprecisos, como a influência de uma peça no carro. Uma roda de liga leve não original pode comprometer a cobertura da suspensão e até do monobloco do automóvel, dependendo de quem avalie o caso.

A instalação de equipamentos que mexem com a parte elétrica, como rádio, vidros elétricos e faróis de milha, é tolerada com restrições. Um serviço mal feito pode comprometer o funcionamento da injeção eletrônica, do airbag e, em alguns carros, do próprio acelerador.

Acessórios que exigem furar a lataria, como antenas de teto e travas de câmbio, anulam a garantia contra corrosão das peças afetadas. Um reboque mal projetado pode ainda comprometer a estrutura do automóvel. Isso porque, numa batida, ele transfere o impacto para partes do monobloco que não estão prontas para amassar. Em alguns casos, fica impossível recuperar o carro.

Mas há situações tidas como indiscutíveis, que certamente levam à perda da cobertura gratuita. É o caso da instalação de ar-condicionado fora da rede concessionária, que normalmente afeta a garantia do automóvel inteiro.

— O sistema de ar-condicionado mexe com a suspensão, a refrigeração, a parte elétrica e o motor. Não temos como assegurar a qualidade de produtos e serviços feitos na loja da esquina — diz Carlos Henrique Ferreira, assessor técnico da Fiat.

A restrição também vale para a blindagem de carros, com uma diferença: as montadoras vêm homologando empresas instaladoras. O serviço de algumas oficinas foi aprovado e não compromete a garantia. Em breve, também será possível instalar kit gás em lojas particulares autorizadas.

Quem faz todas as revisões em dia e compra até as palhetas do limpador na rede autorizada está livre da perda de garantia, certo? Errado. A concessionária ainda pode se recusar a trocar peças defeituosas de graça alegando mau uso. A definição de mau uso passa por hábitos extremos como apostar corrida, carregar mais peso que a capacidade do carro ou saltar pontes como se fosse o Keanu Reeves no filme “Velocidade Máxima”. Mas também chega a práticas mais corriqueiras, como enfrentar uma enchente ou uma estrada extremamente esburacada.

Dirigir com o pé apoiado no pedal de embreagem ou deixar a mão sobre a alavanca de câmbio apressam o desgaste do carro. Estas advertências estão no manual do proprietário.

Consumidor pode pedir laudo para a montadora

A noção do que é mau uso nem sempre é tão objetiva. O aposentado Manoel Tunes Villani, por exemplo, dirigiu por 30 anos antes de ouvir da rede autorizada Fiat que seu modo de guiar prejudicava a durabilidade do carro. Seu Palio Weekend 1.0 modelo 1999, de seis marchas, levou apenas 12 mil quilômetros para consumir um disco de embreagem. A concessionária se recusou a trocar a peça (que normalmente é considerada de desgaste natural, assim como pneus e correias) na garantia. O caso foi para a avaliação da Fiat no início do ano.

Enquanto o resultado do laudo técnico não chega, Villani prepara-se para comprar mais um disco de embreagem. Aos 25 mil quilômetros, seu carro voltou a dar defeito.

— Sou leigo no assunto, mas acho que o carro é pesado demais para motor que tem, e esse problema acaba sendo transferido para a embreagem — opina Villani. — Tive outros sete carros e nunca passei por situação parecida. Moro num bairro de Minas Gerais cheio de ladeiras, mas nunca levo mais que três pessoas. Tenho evitado passar por subidas mais fortes. Daqui a pouco, só poderei enfrentar descidas.

 

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