FONTE: JORNAL DA TARDE - 31/03/2002  
 
Nos carros, recall já está virando item de série 
 

Após sofrer quatro acidentes causados por um defeito de fábrica, Jaílton de Jesus Silva resolveu fundar a Associação Nacional das Vítimas de Montadoras e Concessionárias Automobilísticas (Anvemca) para tentar pressionar autoridades e fabricantes. Ele diz que a maior parte dos problemas, por mais perigosos que sejam, não chega ao conhecimento do consumidor. Um exemplo citado por ele é a Mitsubishi, cujo presidente assumiu recentemente que a empresa ocultou durante décadas defeitos em seus veículos. "As montadoras não mostram o risco que levam aos consumidores", afirma. Isso porque seria mais fácil arcar com o custo de ações judiciais do que com o do recall.

O presidente da Anvemca passou os últimos sete anos reunindo informações e documentos para fazer alertas a respeito da falta de controles sobre os defeitos de fabricação. Ele diz que as montadoras detectam problemas, comunicam as concessionárias, mas não fazem o recall. Mesmo que essa prática não corresponda à realidade, os argumentos de Jaílton Silva, sustentados por casos como o da Mitsubishi, fazem com que o recall possa ser interpretado como um sinal de que a empresa falhou ao produzir defeitos em série e de que nem sempre vale a pena para ela tornar pública essa falha. Além disso, as companhias podem ser acusadas de expor as pessoas a danos que poderiam ser evitados.

Em vez do recall, a convocação do juiz

A iniciativa de se fazer um recall é baseada num problema que foi detectado pelo consumidor, em revisões, ou em testes de controle de qualidade. Nos dois primeiros casos, é comum que as companhias só tomem medidas públicas quando já ocorreram acidentes. Em 1996, a Fiat fez um recall de 160 mil unidades do modelo Tipo importado da Itália, porque o vazamento em uma peça poderia causar um incêndio. Mais de 60 já haviam pegado fogo e a empresa foi processada pelos danos quando foi feito o anúncio. Os proprietários chegaram a organizar uma associação para exigir reparação.

"Infelizmente há casos em que o recall vem depois dos acidentes. Quem se acidenta por causa de um problema de fábrica geralmente consegue ser indenizado após anos de trâmites jurídicos", afirma o advogado Lauro Malheiros Neto, que tem vasta experiência em ações contra montadoras. No momento, o advogado atende a dois casos em que ocupantes de um veículo com defeito de fábrica morreram no acidente.

Em um deles, o motorista não resistiu aos ferimentos de uma batida que, segundo o laudo apresentado pelo advogado, foi provocada por uma rachadura na roda do carro. A montadora nega que essa tenha sido a causa do acidente.

"Mas poucas semanas depois foi feito um recall do lote de rodas que equipavam aquele carro", rebate Malheiros.

Nos Estados Unidos, a Ford e a Firestone respondem a diversos processos pela morte de 174 pessoas em acidentes com a picape Explorer. A montadora aponta defeitos nos pneus que teriam causado o capotamento dos veículos. A fábrica de pneus mostra erros no projeto da picape que tirariam sua estabilidade. Na dúvida, a Explorer passou por dois recalls para a troca de pneus. A conta ficou perto de US$ 2 bilhões, mas deve ser bem maior quando as ações forem julgadas.

Chamando todos os carros

Apesar de o recall ser praticado no Brasil desde a década de 80, foi apenas a partir de 1990, com a aprovação do Código de Defesa do Consumidor, que ele passou a fazer parte do vocabulário dos brasileiros. "O Código trouxe uma clara proibição ao lançamento de produtos com defeitos que coloquem em risco a saúde e a segurança das pessoas", explica Ricardo Morishita Wada, diretor de programas especiais do Procon-SP.

Essa proibição implica que, caso um produto tenha sido lançado com algum defeito que leve perigo ao consumidor, os fabricantes são obrigados a recolhê-los ou repará-los. "Nesse caso ocorre o recall, que é a chamada dos compradores", diz Wada.

De acordo com o Código, a comunicação com os consumidores deve ser feita por meio de anúncios que possam atingir todas as pessoas, independentemente de terem comprado o produto ou não. "Um acidente pode envolver quem não tem nada a ver com o recall, por isso todos têm o direito de saber que ele está acontecendo. Os anúncios devem ser claros e colocar o problema com transparência" esclarece Wada. Não existe um tempo mínimo para a comunicação, mas o diretor do Procon diz que as campanhas devem durar o período necessário para que a maioria dos consumidores faça o recall.

Wada afirma que as ações de comunicação devem ser viabilizadas da maneira mais rápida possível porque qualquer demora coloca em risco a segurança da população. Em 2000, a General Motors foi multada em mais de R$ 3 milhões porque demorou para fazer o recall no cinto de segurança do Corsa. "É importante também que os anúncios sejam atendidos rapidamente, apesar de os reparos poderem ser feitos a qualquer tempo", alerta.

Nos últimos anos, aumentou o número de chamadas para reparos em produtos que não representavam risco aos consumidores. Não são considerados um recall, de acordo com Wada. "Mas mostram que as empresas estão preocupadas em prevenir danos a seus clientes."

Recall. Você ainda vai fazer um
Os recalls são cada vez mais freqüentes: carro, computador, tênis, biquíni. É coincidência ou ninguém mais faz controle de qualidade?

Está cada vez mais difícil escapar de um recall. A indústria automobilística, que lidera estatísticas de reparos em produtos com defeitos de fabricação, tem lançado campanhas com intervalos cada vez menores.

Somente nos primeiros 60 dias deste ano, seis marcas de veículos anunciaram recall em seus modelos.

O primeiro do ano foi comandado pelas quatro maiores montadoras do País - Volkswagen, Fiat, General Motors e Ford - quando um fornecedor relatou problemas numa peça do freio. Mais de 50 mil veículos foram chamados às concessionárias. Esse caso não chega perto do recall do Corsa, em 2000, quando 1,3 milhão de carros passaram pela manutenção do cinto de segurança.

A velocidade com que os casos de recall se reproduzem aumentou na década de 90. A palavra só passou a fazer parte da vida do brasileiro nos anos 80, quando as montadoras começaram a fazer essa operação. O termo, criado nos Estados Unidos na década de 60, significa na prática a 'convocação' dos proprietários de um produto para uma correção.

O recall tem dois aspectos contrastantes que são levados em conta pelos especialistas na área industrial. Ele representa o aumento de cobrança sobre a segurança e a conseqüente resposta das empresas, que passaram a assumir publicamente os defeitos. Ao mesmo tempo, reflete falhas nos processos produtivos.

"É positivo que as empresas façam um recall, que antigamente não era feito", afirma Mauro Zilbovicius, professor do departamento de engenharia de produção da Escola Politécnica da USP. Até a década de 70, era mais fácil para as companhias esconder por um longo tempo que seus produtos tinham problemas.

Um dos casos mais chocantes de recall foi o do Ford Pinto, um compacto lançado nos Estados Unidos no fim dos anos 60. Ele se tornou um sucesso de vendas, mas tinha um erro em seu projeto. Uma batida na traseira poderia projetar combustível para dentro do veículo, o que causaria uma explosão fatal para os ocupantes. O público ficou sabendo do caso após uma investigação sobre o grande número de carros incendiados.

A Ford ficou com a imagem manchada porque tinha conhecimento do defeito, e foi obrigada a fazer um recall. Mesmo com essa lição, ela enfrentou um caso parecido há dois anos, quando se constatou que defeitos nos pneus da Firestone que equipavam a Explorer causaram acidentes e a morte de motoristas.

Nos casos em que os clientes de uma empresa correm risco, os especialistas em marketing aconselham uma comunicação rápida, de preferência com o presidente da empresa. "O consumidor entende que é impossível produzir sem falhas, mas isso muda quando ocorre um acidente", analisa Francisco Toledo, diretor da consultoria Toledo e Associados.

As indústrias organizaram setores de controle de qualidade para evitar que mercadorias saíssem com defeitos. Mas nem sempre a verificação é feita em todas as partes do processo de produção. Em setores com intensa terceirização esse controle é transferido ao fornecedor. "A indústria passou a ter um número maior de fornecedores e a exigir certificados de qualidade para reduzir custos", conta Mauro Zilbovicius.

Até biquínis já foram convocados

Certificados como ISO e QS deixam a empresa que monta um produto segura, pelo menos na teoria, de que os componentes são feitos dentro de padrões internacionais de qualidade. Isso permite economia em controles internos, mas abre brechas para que o erro de um fornecedor atinja todos os produtos da linha e até de empresas diferentes.

Problemas com fornecedores acontecem em todos os setores. No ano passado a Rosa Chá, que produz biquinis e maiôs, fez um recall de mil peças feitas com um tecido que desbotava. A fábrica mandou cartas para todos os 50 mil clientes cadastrados em suas lojas. "Achamos sensato informar sobre o problema. A fidelização no nosso ramo é muito grande e nós quisemos mostrar respeito ao consumidor", lembra Amir Slama, proprietário da empresa. No fim, o recall deu espaço para a promoção da marca nos meios de comunicação.

Fora do setor automobilístico, os recalls não são tão grandiosos, mas também são comuns. A Nike trocou no ano passado 425 mil pares de tênis que tinham uma tira de metal que poderia se soltar e ferir o usuário. No ramo de informática, a Intel já enfrentou problemas em um lote dos processadores Pentium III e a Dell, que lidera as vendas de computadores nos EUA, precisou trocar a bateria de uma linha de notebooks.

GUIDO ORGIS
Jornal da Tarde


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