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Após sofrer quatro acidentes causados por um defeito de fábrica, Jaílton
de Jesus Silva resolveu fundar a Associação Nacional das Vítimas de
Montadoras e Concessionárias Automobilísticas (Anvemca) para tentar pressionar
autoridades e fabricantes. Ele diz que a maior parte dos problemas, por mais
perigosos que sejam, não chega ao conhecimento do consumidor. Um exemplo citado
por ele é a Mitsubishi, cujo presidente assumiu recentemente que a empresa
ocultou durante décadas defeitos em seus veículos. "As montadoras não
mostram o risco que levam aos consumidores", afirma. Isso porque seria mais
fácil arcar com o custo de ações judiciais do que com o do recall.
O presidente da Anvemca passou os últimos sete anos reunindo informações e
documentos para fazer alertas a respeito da falta de controles sobre os defeitos
de fabricação. Ele diz que as montadoras detectam problemas, comunicam as
concessionárias, mas não fazem o recall. Mesmo que essa prática não
corresponda à realidade, os argumentos de Jaílton Silva, sustentados por casos
como o da Mitsubishi, fazem com que o recall possa ser interpretado como um
sinal de que a empresa falhou ao produzir defeitos em série e de que nem sempre
vale a pena para ela tornar pública essa falha. Além disso, as companhias
podem ser acusadas de expor as pessoas a danos que poderiam ser evitados.
Em vez do recall, a convocação do juiz
A iniciativa de se fazer um recall é baseada num problema que foi detectado
pelo consumidor, em revisões, ou em testes de controle de qualidade. Nos dois
primeiros casos, é comum que as companhias só tomem medidas públicas quando já
ocorreram acidentes. Em 1996, a Fiat fez um recall de 160 mil unidades do modelo
Tipo importado da Itália, porque o vazamento em uma peça poderia causar um incêndio.
Mais de 60 já haviam pegado fogo e a empresa foi processada pelos danos quando
foi feito o anúncio. Os proprietários chegaram a organizar uma associação
para exigir reparação.
"Infelizmente há casos em que o recall vem depois dos acidentes. Quem
se acidenta por causa de um problema de fábrica geralmente consegue ser
indenizado após anos de trâmites jurídicos", afirma o advogado Lauro
Malheiros Neto, que tem vasta experiência em ações contra montadoras. No
momento, o advogado atende a dois casos em que ocupantes de um veículo com
defeito de fábrica morreram no acidente.
Em um deles, o motorista não resistiu aos ferimentos de uma batida que,
segundo o laudo apresentado pelo advogado, foi provocada por uma rachadura na
roda do carro. A montadora nega que essa tenha sido a causa do acidente.
"Mas poucas semanas depois foi feito um recall do lote de rodas que
equipavam aquele carro", rebate Malheiros.
Nos Estados Unidos, a Ford e a Firestone respondem a diversos processos pela
morte de 174 pessoas em acidentes com a picape Explorer. A montadora aponta
defeitos nos pneus que teriam causado o capotamento dos veículos. A fábrica de
pneus mostra erros no projeto da picape que tirariam sua estabilidade. Na dúvida,
a Explorer passou por dois recalls para a troca de pneus. A conta ficou perto de
US$ 2 bilhões, mas deve ser bem maior quando as ações forem julgadas.
Chamando todos os carros
Apesar de o recall ser praticado no Brasil desde a década
de 80, foi apenas a partir de 1990, com a aprovação do Código de Defesa do
Consumidor, que ele passou a fazer parte do vocabulário dos brasileiros.
"O Código trouxe uma clara proibição ao lançamento de produtos com
defeitos que coloquem em risco a saúde e a segurança das pessoas",
explica Ricardo Morishita Wada, diretor de programas especiais do Procon-SP.
Essa proibição implica que, caso um produto
tenha sido lançado com algum defeito que leve perigo ao consumidor, os
fabricantes são obrigados a recolhê-los ou repará-los. "Nesse caso
ocorre o recall, que é a chamada dos compradores", diz Wada.
De acordo com o Código, a comunicação com os
consumidores deve ser feita por meio de anúncios que possam atingir todas as
pessoas, independentemente de terem comprado o produto ou não. "Um
acidente pode envolver quem não tem nada a ver com o recall, por isso todos têm
o direito de saber que ele está acontecendo. Os anúncios devem ser claros e
colocar o problema com transparência" esclarece Wada. Não existe um tempo
mínimo para a comunicação, mas o diretor do Procon diz que as campanhas devem
durar o período necessário para que a maioria dos consumidores faça o recall.
Wada afirma que as ações de comunicação devem
ser viabilizadas da maneira mais rápida possível porque qualquer demora coloca
em risco a segurança da população. Em 2000, a General Motors foi multada em
mais de R$ 3 milhões porque demorou para fazer o recall no cinto de segurança
do Corsa. "É importante também que os anúncios sejam atendidos
rapidamente, apesar de os reparos poderem ser feitos a qualquer tempo",
alerta.
Nos últimos anos, aumentou o número de chamadas
para reparos em produtos que não representavam risco aos consumidores. Não são
considerados um recall, de acordo com Wada. "Mas mostram que as empresas
estão preocupadas em prevenir danos a seus clientes."
| Recall.
Você ainda vai fazer um
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Os recalls são cada vez mais freqüentes: carro, computador, tênis,
biquíni. É coincidência ou ninguém mais faz controle de qualidade?
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Está cada vez mais difícil escapar de um recall. A indústria automobilística,
que lidera estatísticas de reparos em produtos com defeitos de fabricação,
tem lançado campanhas com intervalos cada vez menores.
Somente nos primeiros 60 dias deste ano, seis marcas de veículos anunciaram
recall em seus modelos.
O primeiro do ano foi comandado pelas quatro maiores montadoras do País -
Volkswagen, Fiat, General Motors e Ford - quando um fornecedor relatou problemas
numa peça do freio. Mais de 50 mil veículos foram chamados às concessionárias.
Esse caso não chega perto do recall do Corsa, em 2000, quando 1,3 milhão de
carros passaram pela manutenção do cinto de segurança.
A velocidade com que os casos de recall se reproduzem aumentou na década de
90. A palavra só passou a fazer parte da vida do brasileiro nos anos 80, quando
as montadoras começaram a fazer essa operação. O termo, criado nos Estados
Unidos na década de 60, significa na prática a 'convocação' dos proprietários
de um produto para uma correção.
O recall tem dois aspectos contrastantes que são levados em conta pelos
especialistas na área industrial. Ele representa o aumento de cobrança sobre a
segurança e a conseqüente resposta das empresas, que passaram a assumir
publicamente os defeitos. Ao mesmo tempo, reflete falhas nos processos
produtivos.
"É positivo que as empresas façam um recall, que antigamente não era
feito", afirma Mauro Zilbovicius, professor do departamento de engenharia
de produção da Escola Politécnica da USP. Até a década de 70, era mais fácil
para as companhias esconder por um longo tempo que seus produtos tinham
problemas.
Um dos casos mais chocantes de recall foi o do Ford Pinto, um compacto lançado
nos Estados Unidos no fim dos anos 60. Ele se tornou um sucesso de vendas, mas
tinha um erro em seu projeto. Uma batida na traseira poderia projetar combustível
para dentro do veículo, o que causaria uma explosão fatal para os ocupantes. O
público ficou sabendo do caso após uma investigação sobre o grande número
de carros incendiados.
A Ford ficou com a imagem manchada porque tinha conhecimento do defeito, e
foi obrigada a fazer um recall. Mesmo com essa lição, ela enfrentou um caso
parecido há dois anos, quando se constatou que defeitos nos pneus da Firestone
que equipavam a Explorer causaram acidentes e a morte de motoristas.
Nos casos em que os clientes de uma empresa correm risco, os especialistas em
marketing aconselham uma comunicação rápida, de preferência com o presidente
da empresa. "O consumidor entende que é impossível produzir sem falhas,
mas isso muda quando ocorre um acidente", analisa Francisco Toledo, diretor
da consultoria Toledo e Associados.
As indústrias organizaram setores de controle de qualidade para evitar que
mercadorias saíssem com defeitos. Mas nem sempre a verificação é feita em
todas as partes do processo de produção. Em setores com intensa terceirização
esse controle é transferido ao fornecedor. "A indústria passou a ter um número
maior de fornecedores e a exigir certificados de qualidade para reduzir
custos", conta Mauro Zilbovicius.
Até biquínis já foram convocados
Certificados como ISO e QS deixam a empresa que monta um produto segura, pelo
menos na teoria, de que os componentes são feitos dentro de padrões
internacionais de qualidade. Isso permite economia em controles internos, mas
abre brechas para que o erro de um fornecedor atinja todos os produtos da linha
e até de empresas diferentes.
Problemas com fornecedores acontecem em todos os setores. No ano passado a
Rosa Chá, que produz biquinis e maiôs, fez um recall de mil peças feitas com
um tecido que desbotava. A fábrica mandou cartas para todos os 50 mil clientes
cadastrados em suas lojas. "Achamos sensato informar sobre o problema. A
fidelização no nosso ramo é muito grande e nós quisemos mostrar respeito ao
consumidor", lembra Amir Slama, proprietário da empresa. No fim, o recall
deu espaço para a promoção da marca nos meios de comunicação.
Fora do setor automobilístico, os recalls não são tão grandiosos, mas
também são comuns. A Nike trocou no ano passado 425 mil pares de tênis que
tinham uma tira de metal que poderia se soltar e ferir o usuário. No ramo de
informática, a Intel já enfrentou problemas em um lote dos processadores
Pentium III e a Dell, que lidera as vendas de computadores nos EUA, precisou
trocar a bateria de uma linha de notebooks.
GUIDO ORGIS Jornal da Tarde
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