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Maioria dos carros
vendidos nos últimos dois anos teve problemas
ELZA YURI HATTORI
Taxa de 57% de defeito preocupa entidades de
proteção ao consumidor que temem falhas no controle de qualidade. Ministério da
Justiça diz que dados assustam, mas revelam amadurecimento nas relações de
consumo
Mais da metade dos veículos vendidos nos últimos dois anos
no Brasil, entre nacionais e importados, apresentou algum defeito de fabricação
e foi objeto de recall (convocação do fabricante para reparo ou troca da peça
defeituosa). Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos
Automotores (Anfavea), mostram que de janeiro de 2000 a julho de 2002, foram
vendidos no país 3.809.700 veículos. O Ministério da Justiça, que acompanha as
convocações, registra 2.195.496 veículos que passaram por recall em igual
período, conforme mostra quadro na página ao lado. Isso significa que pelo menos
57,63% dos veículos vendidos saíram da fábrica com problemas, geralmente em
itens de segurança, como sistema de freios, air bags, mangueiras de combustível,
pneus, entre outros.
Estados Unidos
A quantidade de recalls no país, no entanto, é bem inferior
a de países da Europa e dos Estados Unidos. Segundo Jailton de Jesus Silva,
presidente da Associação Nacional de Consumidores e das Vítimas de Montadoras e
Concessionárias (Anvemca), lá são realizados cerca de 230 recalls por ano contra
quatro a cinco por ano no Brasil . Para ele, a questão não é comparar os números
de vendas de veículos com os de recalls, mas verificar quantos recalls foram
assumidos pela indústria até hoje. “Muito pouco diante da realidade”, responde
Jailton de Jesus Silva.
Citando a agência americana de trânsito NHTSA, ele diz que
só em fevereiro de 2002 foram comunicados, nos Estados Unidos, nove recalls,
envolvendo mais de dois milhões de carros. Em 1997, nos EUA, foram divulgados
251 recalls. “São os americanos, então, os maiores fabricantes de carros
defeituosos ou é o Brasil o recordista na ocultação dos mesmos?”
O presidente da Anvemca também chama a atenção para o fato
de que os recalls deveriam considerar a frota em circulação — 33 milhões de
veículos no país, segundo o Departamento Nacional de Trânsito, dos quais 13
milhões no Estado de São Paulo, segundo a Secretaria Estadual da Fazenda.
“Acredito que 80% da frota está comprometida com algum defeito de fabricação e
não passou por recall”, diz Silva. Ele salienta que a maioria das pessoas sequer
tem noção do que seja um recall . “Por isso, mais importante do que fazer o
recall é garantir 100% de atendimento”, alerta.
Para o Procon a grande concentração de recalls na indústria
automobilística pode indicar deficiência no controle de qualidade e maior risco
à segurança. “Nossa preocupação se acentua quando observamos mais de um recall
para o mesmo veículo. E, no caso do carro, o prejuízo maior é com a segurança do
proprietário e de terceiros, não é econômico”, diz a técnica Selma do
Amaral.
Segundo o Procon, o índice de retorno aos recalls gira em
torno de 50% e 70% e causa apreensão. “Muitas vezes não se consegue localizar o
proprietário e a gente verifica que os baixos índices não geram preocupação no
fabricante. Entendemos que é preciso mais empenho das empresas. Mas o consumidor
também deve atender a convocação caso tome conhecimento”, avisa a técnica.
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